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A Fuga para o "Espiritual": O Medo dos religiosos da Realidade de Cantares

 A Fuga para o "Espiritual": O Medo dos religiosos da Realidade de Cantares




   É comum encontrar cristãos e teólogos que, desconfortáveis com a linguagem erótica e a celebração física do livro de Cantares de Salomão, correm para uma interpretação puramente alegórica. Dizem que o livro fala apenas de Deus e Israel, ou de Cristo e a Igreja, negando sua realidade literal. Essa postura não é apenas uma interpretação, mas muitas vezes um reflexo de uma mentalidade que vê o sexo e o corpo como algo menor ou pecaminoso, tentando "higienizar" o texto sagrado. Essa tendência de fugir do sentido literal possui raízes históricas profundas e documentadas.

    Começaremos pelo Judaísmo (séc. I d.C.). A prova de que os judeus precisaram "espiritualizar" o livro para aceitá-lo está registrada na Mishná (uma das principais obras do judaísmo rabínico). No tratado Yadayim 3:5, registra-se uma famosa discussão sobre se Cantares deveria ser considerado sagrado. O Rabino Akiva (c. 50–135 d.C.) defendeu o livro apaixonadamente, dizendo: "O mundo inteiro não vale o dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel", mas só o fez porque a interpretação aceita era a de que o livro tratava do amor de Deus por Israel, e não de amor humano erótico.¹ Além disso, o Targum de Cantares (uma tradução aramaica antiga usada nas sinagogas) altera o texto original, traduzindo-o não literalmente, mas como uma história alegórica do Êxodo do Egito até o Messias.²

   Na Patrística (séc. III d.C.), temos Orígenes de Alexandria (c. 185–254 d.C.) que consolidou a visão de que o livro não poderia ser lido literalmente. Em seu famoso "Comentário sobre o Cântico dos Cânticos", Orígenes argumenta que o texto descreve as bodas da alma com o Verbo (Cristo), rejeitando o sentido carnal.³

   Na Reforma Protestante (séc. XVI): O conflito citado sobre a permanência do livro na Bíblia é um fato histórico conhecido como a controvérsia entre João Calvino e Sebastião Castellio. Castellio, um erudito contemporâneo de Calvino em Genebra, argumentou que Cantares era apenas um poema de amor humano e lascivo, e por isso não deveria estar na Bíblia. Calvino, para defender a permanência do livro no cânon sagrado, insistiu na interpretação alegórica (o amor de Cristo pela Igreja) e considerou a visão literal de Castellio uma heresia, o que levou à expulsão de Castellio de Genebra em 1544.⁴


O Erro Lógico: A Alegoria Depende da Realidade


   Essa fuga para o espiritual consigo desmontar com um argumento lógico: uma alegoria (o sentido espiritual) utiliza uma realidade concreta (o sentido literal) para explicar uma verdade. Se a realidade concreta for considerada "suja" ou "indigna", a alegoria construída sobre ela também o será. A alegoria devocional só é verdadeira se baseada numa verdade real, e só é eticamente boa se a realidade tomada como ilustração for igualmente moral e pura. Ou seja, se o amor físico, o desejo e o corpo de um homem e uma mulher não fossem santos e legítimos, usá-los para ilustrar o amor de Cristo pela Igreja seria uma profanação. Para que Cantares fale de Cristo, ele precisa primeiro falar validamente do amor erótico e conjugal, pois se o físico engravida o espiritual, é porque o físico está revestido de dignidade. Fugir para o "apenas espiritual" é ignorar que a Escritura desce a um nível de detalhamento anatômico que muitos cristãos, presos a um ascetismo hipócrita, não conseguem suportar. O texto celebra o corpo sem pudores, exaltando partes como os seios, o umbigo e as pernas (Cantares 7:1-3). A sedução e o desejo, olhares que arrebatam o coração e da mútua posse entre os amantes, são coisas que o livro relata. O ato conjugal não é escondido, mas celebrado; o leito é visto como um altar de adoração a Deus através da alegria dos corpos e da dança do amor. Alerto aqui o perigo do gnosticismo (a ideia grega de que a matéria é má e o espírito é bom), que tenta dicotomizar o corpo do espírito, afirmando que em Cantares o sublime não está abstrato "no céu", mas "aqui e agora", no corpo e no sangue.


Conclusão: O Propósito do Livro


   O propósito de Cantares não é anular o humano para exaltar o divino, mas mostrar que o amor humano, em sua plenitude física e emocional, é sagrado. O livro é uma descrição poética do amor entre um homem e uma mulher, que serve de base para entendermos o amor de Deus. Dizer que Cantares é "só para Deus" é uma tentativa de fugir da responsabilidade de encarar a sexualidade como uma dádiva santa. O livro deve ser lido como poesia pura, permitindo que seu encanto natural seduza com beleza, mistério e paixão, restaurando a visão de que o amor erótico e a paixão conjugal são, em si mesmos, uma liturgia e um culto ao Criador da vida.


Fontes Históricas para Consulta (Provas documentais)


   ¹ Mishná, Tratado Yadayim, capítulo 3, versículo 5. (Neste texto legal judaico do séc. II, registra-se a defesa de Rabi Akiva sobre a santidade do livro contra aqueles que o cantavam em banquetes como música profana).

    Tosefta, Tratado Sanhedrin, 12:10. (Onde se proíbe tratar Cantares como uma canção comum).


   ² Targum do Cântico dos Cânticos. (Esta é a tradução aramaica antiga que, ao invés de traduzir o hebraico literalmente, insere a história do Êxodo e do Messias no meio dos versos de amor, provando a necessidade antiga de alegorizar).


   ³ Orígenes. O Cântico dos Cânticos: Comentário e Homilias. (Obra do séc. III onde Orígenes estabelece que o "noivo" é o Verbo de Deus e a "noiva" é a alma ou a Igreja, rejeitando a leitura carnal).


   ⁴ Registros do Conselho de Genebra, Janeiro de 1544 (documentam a acusação de Calvino contra Castellio sobre este ponto específico).


Nicolas Breno

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