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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Carnaval e suas raízes

 

Não se engane: o Carnaval não é uma "festa cultural inocente". É um ritual litúrgico pagão de possessão e caos, que sobreviveu aos milênios. Quem estuda as fontes primárias sabe que essa "nojeira" tem nome e sobrenome histórico: as Bacanais e as Saturnais.


Para entender a raiz disso, basta ler "As Bacantes" de Eurípides. Lá está descrita a natureza do culto a Dioniso (ou Baco): a mania (loucura), o êxtase coletivo onde o indivíduo perde a razão e se funde à massa descontrolada. Eurípides mostra como o "estrangeiro" (o deus) traz uma "festa" que destrói a ordem da cidade e leva as mulheres ao monte Citéron para rituais de desmembramento (sparagmos) e ingestão de carne crua. O que vemos hoje nas ruas é a versão moderna dessa dissolução da personalidade em favor de uma "alma coletiva" bestializada.

Essa estrutura de "mundo ao contrário", onde o sagrado é zombado e a hierarquia é invertida, vem direto de Roma. Como explica Mikhail Bakhtin em "A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento", o Carnaval é o herdeiro direto das Saturnais Romanas. Era o período em que os escravos viravam senhores, as leis eram suspensas e o "baixo corporal" (o sexo, a excreção, a gula) reinava sobre o espírito. Bakhtin detalha como essa visão de mundo "carnavalesca" celebra a queda do que é elevado e espiritual em favor do grotesco e do material.

Antropologicamente, o objetivo dessa festa sempre foi invocar o caos. Em "O Ramo de Ouro", James Frazer conecta esses festivais aos ritos de "expulsão da morte" e de bodes expiatórios, onde a licenciosidade pública era uma tentativa mágica de garantir a fertilidade, sacrificando a moralidade em prol da carne. É um retorno consciente ao estado primordial e bárbaro.

Como resume Mircea Eliade em seu "Tratado de História das Religiões", essas orgias rituais têm uma função teológica específica: a "regressão ao caos". A abolição das normas e o excesso não são apenas "diversão", são uma tentativa de dissolver a criação ordenada por Deus para voltar a um estado de confusão pré-cósmica. O folião, mascarado (perdendo sua identidade, como aponta o Dicionário de Símbolos de Chevalier & Gheerbrant ), deixa de ser um indivíduo moral para se tornar um veículo de forças que ele não compreende e não controla.

O Carnaval é, na essência, a recusa da Ordem e a celebração litúrgica do Caos. Não é cultura, é culto. E o altar é a rua.

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