Em debates interconfessionais sobre o cânon bíblico, particularmente entre católicos e protestantes, a validade dos livros deuterocanônicos (ou apócrifos, na terminologia protestante) é um ponto central de discórdia. Um argumento frequentemente utilizado por apologistas católicos para defender a inspiração e canonicidade desses livros é a alegação de que eles são citados ou referenciados no Novo Testamento. A afirmação de que Jesus Cristo teria citado diretamente o Livro de Tobias é apresentada como uma prova contundente de sua autoridade. No entanto, uma análise textual e metodológica rigorosa revela que essa afirmação é argumentativamente frágil, baseando-se em uma inferência que confunde paralelo temático com citação canônica.
A passagem que o apologista católico provavelmente tem em mente, ao afirmar que Jesus citou Tobias, é a "Regra de Ouro". Não existe nenhuma passagem nos Evangelhos onde Jesus diga: "Como está escrito no Livro de Tobias...". O que existe é um forte paralelo temático entre um ensinamento de Jesus e um conselho dado no livro de Tobias.
No Livro de Tobias (Tobias 4:15): "Não faças a ninguém o que não queres que te façam."
No Evangelho de Mateus (Mateus 7:12): "Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas." (Veja também Lucas 6:31).
O apologista católico, ao ouvir a "Regra de Ouro" de Jesus, identifica sua origem em Tobias 4:15 e conclui que Jesus estava, de fato, citando este livro.
A Diferença entre Paralelo Negativo e Positivo
A primeira objeção a essa tese é que não se trata de uma citação direta ou exata. A formulação encontrada em Tobias é a "Regra de Ouro" em sua forma negativa ("Não faças..."). Esta era uma máxima ética amplamente difundida no judaísmo antigo e em outras culturas. Por exemplo, o famoso rabino Hillel, o Velho (que viveu pouco antes de Jesus), teria dito: "O que é odioso para ti, não faças ao teu próximo. Esta é toda a Torá; o resto é comentário".
Jesus, por outro lado, apresenta a regra em sua forma positiva ("Fazei-lho também vós..."). Esta não é apenas uma mudança semântica; é uma intensificação ética radical. A forma negativa permite uma ética passiva (basta abster-se de fazer o mal), enquanto a forma positiva de Jesus exige uma ação proativa e misericordiosa (buscar ativamente fazer o bem). Portanto, Jesus não está meramente citando Tobias; ele está pegando um princípio ético conhecido (provavelmente familiar a seus ouvintes através de fontes como Tobias ou a tradição rabínica) e o está reformando e elevando ao seu padrão máximo.
Alusão não Confere Canonicidade
O ponto forte da contra-argumentação, no entanto, é este: mesmo que se admita que Jesus estava conscientemente aludindo a Tobias 4:15, uma alusão ou referência não confere automaticamente inspiração divina ou canonicidade a uma fonte. Os autores do Novo Testamento, incluindo Jesus, viviam imersos na cultura judaica do Segundo Templo, onde uma vasta literatura religiosa era lida e respeitada, muito além dos 39 livros do cânon hebraico (Tanakh). O exemplo mais claro disso se encontra nos escritos do Apóstolo Paulo. Em Atos 17:28, durante seu discurso no Areópago de Atenas, Paulo cita diretamente dois poetas pagãos gregos: "Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração."
Paulo está citando o poeta cretense Epimênides ("nele vivemos...") e o poeta estóico Arato ("Pois somos também sua geração"). Ao citar esses poetas pagãos, Paulo estaria afirmando que seus poemas são "inspirados e corretos" no sentido de Escritura Sagrada? Obviamente não. Ele estava usando um ponto de contato cultural, uma verdade reconhecida por seus ouvintes, para construir uma ponte para o Evangelho. Da mesma forma, a Epístola de Judas (versículos 14-15) faz uma referência clara ao Livro de Enoque, um texto apocalíptico judaico que nenhuma grande tradição cristã (exceto a Igreja Ortodoxa Etíope) aceita como canônico. Se Paulo pode citar poetas pagãos e Judas pode referenciar o Livro de Enoque sem que isso os torne canônicos, então a suposta alusão de Jesus à "Regra de Ouro" (que também existia fora de Tobias) não pode ser usada como prova definitiva da inspiração divina de Tobias. Quando os autores do Novo Testamento consideravam algo como Escritura divinamente inspirada, eles usavam fórmulas introdutórias específicas, como "Está escrito..." ou "Como diz a Escritura...", e invariavelmente aplicavam isso aos livros do cânon hebraico (a Lei e os Profetas). O Livro de Tobias nunca recebe esse tratamento.
Conclusão
A afirmação de que Jesus "citou" o Livro de Tobias e que isso prova sua inspiração é um salto lógico insustentável. O que existe é um paralelo temático com uma máxima ética (a Regra de Ouro) que era de conhecimento comum no mundo antigo. Além disso, Jesus modifica essa regra de sua forma negativa (encontrada em Tobias e em outras fontes) para uma forma positiva e mais exigente.
O argumento central falha porque confunde alusão cultural com endosso canônico. Os autores do Novo Testamento, incluindo Paulo, referenciaram várias fontes não-canônicas (e até mesmo pagãs) para fins retóricos, sem que isso implicasse sua inspiração divina. A inclusão do Livro de Tobias no cânon católico baseia-se em decisões conciliares posteriores da Instituição Religiosa (como os Sínodos de Hipona e Cartago, e reafirmados em Trento), e não em uma citação explícita ou endosso canônico por parte de Jesus Cristo.
Nicolas Breno

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