Se acompanhou os outros dois textos com este mesmo tema (sobre Isaías 14 e Ezequiel 28), já deve saber que a narrativa de um anjo bom que se rebelou no céu não encontra base nas Escrituras. Lucas 10:18 é frequentemente relacionado à queda primordial de Satanás, e a questão é séria, pois são as palavras do próprio Messias.
Mas o que O Messias realmente quis dizer com "Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago"? Ele estaria descrevendo a origem de um ser angelical e sua transformação moral? Vamos ler os versos anteriores para compreendermos o contexto antes de chegar ao verso 18.
A declaração de Jesus surge como resposta ao retorno dos setenta discípulos, que relatam a submissão dos demônios durante a proclamação do Reino. O texto realmente fala de Satanás caindo, não há dúvida disso. O que ele não afirma é que essa queda seja a história de sua origem ou de uma rebelião ocorrida antes da história humana.
"E aconteceu que, completando-se os dias para a sua assunção, manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém. E mandou mensageiros adiante de si; e, indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos, para lhe preparem pousada, mas não o receberam, porque o seu aspecto era como de quem ia a Jerusalém." 𝘓𝘶𝘤𝘢𝘴 9
A rivalidade de samaritanos com os judeus se dava no campo histórico, religioso e étnico. Aqui só pelo aspecto de quem ia para Jerusalém já não acolheram os mensageiros, quem sabe se fossem para outra localidade eles os receberiam.
"E depois disto designou o Messias ainda outros setenta, e mandou-os adiante da sua face, de dois em dois, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir. E dizia-lhes: Grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos; rogai, pois, aO Messias da seara que envie obreiros para a sua seara. Ide; eis que vos mando como cordeiros ao meio de lobos. Não leveis bolsa, nem alforje, nem alparcas; e a ninguém saudeis pelo caminho. E, em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: Paz seja nesta casa." 𝘓𝘶𝘤𝘢𝘴 10
Ainda continuando o relato sobre os mensageiros, O Messias mandou-os pelas cidades aonde Ele ia de passar, dando instrução de como se comportar com aqueles que os recebiam: "E, em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei do que vos for oferecido. E curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: É chegado a vós o reino de YHWH." E com aqueles que os não os recebiam: "Mas em qualquer cidade, em que entrardes e vos não receberem, saindo por suas ruas, dizei: Até o pó, que da vossa cidade se nos pegou, sacudimos sobre vós. Sabei, contudo, isto, que já o reino de YHWH é chegado a vós. E digo-vos que mais tolerância haverá naquele dia para Sodoma do que para aquela cidade. Ai de ti, Corazim, ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se fizessem as maravilhas que em vós foram feitas, já há muito, assentadas em saco e cinza, se teriam arrependido. Portanto, para Tiro e Sidom haverá menos rigor, no juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te levantaste até ao céu, até ao inferno serás abatida. Quem vos ouve a vós, a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me enviou." 𝘓𝘶𝘤𝘢𝘴 10
Vamos analisar mais precisamente o verso destacado por mim acima dentro do grego.
Καὶ σύ, Καπερναούμ, ἡ ἕως τοῦ οὐρανοῦ ὑψωθεῖσα, ἕως ᾍδου καταβιβασθήσῃ. (Lucas 10:15 BYZ¹)
Tradução: E tu, Cafarnaum, serás levantada até ao céu? Até ao Hades serás abatida.
A pergunta que O Messias faz é retórica, pois logo em seguida Ele mesmo responde a questão. O verbo καταβιβασθήσῃ é futuro passivo do indicativo, segunda pessoa do singular, de καταβιβάζω, com o sentido de "fazer descer", "rebaixar" ou "levar para baixo". Ele contrasta diretamente com a palavra ὑψωθεῖσα (particípio aoristo passivo de ὑψόω), que significa "elevar" ou "exaltar". Assim, Lucas 10:15 apresenta o contraste entre a exaltação de Cafarnaum e sua futura humilhação.
Em contraste à cidade de Cafarnaum que esteve em posição de autoridade "até ao céu", temos a expressão "Até ao Hades (ᾍδου)", deixando explícito a sua derrota e sua queda de uma questionável autoridade. ᾅδης (Hades) designa, de modo geral, o domínio dos mortos. Em Lucas 10:15, a descida ao Hades funciona como imagem de humilhação e juízo, em contraste com a pretensão de elevação "até ao céu". O texto não pretende descrever detalhadamente a geografia do mundo dos mortos nem justificar concepções populares posteriores de inferno, e nada tem a ver com o inferno imaginado por culturas pagãs e aceito no meio dos religiosos, sobretudo os cristãos.² No Novo Testamento, o Hades é o equivalente grego do Sheol hebraico, designando simplesmente o domínio ou a sepultura dos mortos, onde não há consciência, atividade ou tormento em fogo.³
Até agora lemos algo sobre Satanás? Queda de um ser? Querubim? 𝗡𝗔̃𝗢! Mas as palavras dO Messias ainda não estão finalizadas, vamos prosseguir com a leitura de Lucas 10.
"E voltaram os setenta com alegria, dizendo: Mestre, pelo teu nome, até os demônios se nos sujeitam. E disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu. Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum. Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus. Naquela mesma hora se alegrou O Messias no Espírito, e disse: Graças te dou, ó Pai, Criador do céu e da terra, que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste às criancinhas; assim é, ó Pai, porque assim te aprouve. Tudo por meu Pai foi entregue; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. E, voltando-se para os discípulos, disse-lhes em particular: Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes. Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram." 𝘓𝘶𝘤𝘢𝘴 10
Os setenta mensageiros que O nosso Messias mandou ir de dois em dois todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir, voltaram a Ele com alegria, e aí sim O Salvador responde a eles com esta frase. Os religiosos citam este verso fora de seu contexto, e ainda se esquecem do outro "pedaço" da frase (Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum), e só voltam a se lembrar em certos sermões ridículos quando estão falando sobre prosperidade e o "poder do cristão", e aí isso "calha" bem em citar, caso contrário não é mencionado porque não colabora com a narrativa. Vamos ao uma análise mais profunda do verso em questão.
𝗩𝗲𝗿𝘀𝗼 𝟭𝟴. E disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu.
𝟭. 𝗘𝘂 𝘃𝗶𝗮
Esta conjugação do verbo ver é encontrada nas seguintes versões protestantes em português: ARA (Almeida Revista e Atualizada, 1993), ARC (Almeida Revista e Corrigida, 2009), ARC (Almeida Revista e Corrigida, 1969) ACF (Almeida Revista e Fiel), JFA (João Ferreira de Almeida), NAA (Nova Almeida Atualizada, 2017), TB (Tradução Brasileira, 2010), ARIB (Almeida Revisada Imprensa Bíblica), SBB (Sociedade Bíblica Britânica). Nas versões católicas: Bíblia Matos Soares (1956), Bíblia de Jerusalém (2002), Vulgata Clementina (1952), La Santa Bíblia, TEB (Tradução Ecumênica) etc.
Ela está conjugada no modo pretérito imperfeito do indicativo, que designa um fato passado, mas não concluído (imperfeito = não perfeito, inacabado)⁴. Expressando, assim, uma ideia de continuidade e de duração no tempo.⁵ A pergunta que fica é: como podemos entender esta ação contínua? Satanás já não havia caído antes mesmo dO Criador vir encarnado a esta Terra? Ele estava caindo continuamente na época dO Messias? Para responder a estas questões, precisamos ir ao original grego.
O texto grego (NA28) traz: εἶπεν δὲ αὐτοῖς· ἐθεώρουν τὸν σατανᾶν ὡς ἀστραπὴν ἐκ τοῦ οὐρανοῦ πεσόντα.⁸ (verso 18)
𝟭. ἐθεώρουν (Correspondente no português: eu observava, eu contemplava)
Este é o verbo θεωρέω (theōreō), que significa perceber, ver, observar ou contemplar⁶. Ele está conjugado no "modo indicativo", que afirma fatos como uma realidade⁷.
Além disso, pelo verbo estar no tempo "imperfeito" (ἐθεώρουν), ele apresenta a ação a partir de seu desenvolvimento ou da perspectiva do observador: "eu estava vendo", "eu contemplava". O imperfeito descreve a cena em processo, como ela se desenrolava diante dos olhos do Messias.
É aqui que muitos cometem um erro gramatical grave. O imperfeito não exige que Satanás estivesse caindo repetidamente, nem impede que a cena contemplada envolva um acontecimento único. Portanto, a cronologia e o significado dessa queda não podem ser decididos apenas pelo tempo verbal "imperfeito". O que o imperfeito nos diz é que Jesus, naquele momento, estava contemplando ativamente uma realidade espiritual em curso, e não narrando uma biografia sobre a origem de Satanás no passado distante.
𝟮. ὡς ἀστραπὴν (𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗿𝗮𝗶𝗼)
Os discípulos relatam a submissão dos demônios (δαιμόνια - daimonia), e o Messias responde descrevendo a queda de Satanás (Σατανᾶν - Satanan) no singular. A relação entre as duas declarações apresenta Satanás como o poder adversário cuja autoridade é diretamente atingida pelo avanço do Reino. O versículo, entretanto, não utiliza formalmente a expressão "chefe dos demônios"; essa associação é teológica, não uma tradução direta do texto de Lucas 10:18.
A expressão em grego sobre esta queda de Satanás é facilmente entendida à luz de seu contexto imediato. A imagem que nos é apresentada é uma expressão da visão do Messias sobre a derrota de Satanás diante da vitória dos setenta. A palavra grega para raio é ἀστραπὴν (astrapēn), e o Messias a usou para expressar a ideia de rapidez, uma súbita perda de influência, devido ao poder da chegada do Reino de YHWH através do feito dO Messias e Seus discípulos. O Messias citou o céu (ἐκ τοῦ οὐρανοῦ), para nos dar a imagem do alto, e a perda de Satanás seria tão grande e veloz que ele cairia rapidamente como um raio. É o contraste absoluto: de cima para baixo, de autoridade para derrota, de poder para impotência, de exaltado para humilhado. A comparação com o relâmpago comunica a rapidez e a dramaticidade dessa queda. No contexto do retorno dos discípulos, a imagem representa a derrota e a perda de autoridade de Satanás diante da manifestação do Reino. "Cair do céu" funciona como imagem de rebaixamento e ruína, mas o texto não explica detalhadamente se Jesus descreve uma visão ocorrida naquele momento, uma antecipação profética da derrota final ou uma representação simbólica do efeito imediato da missão.
Conclusão. A ideia central do que está sendo abordado no texto de Lucas 9 e 10, é a ida dos mensageiros as cidades afim de propagar as Boas Novas dO Messias, a mando dEle próprio, e somente com a frase alegre proferida pelos setenta é que entra a figura de Satanás em meio a todo o texto. Se de fato o escritor de Lucas quisesse falar sobre uma suposta queda de um querubim que se rebelou contra Deus, ele não perderia tempo escrevendo sobre todo o processo com os mensageiros e seus detalhes, basta conferir o tamanho do verso 18 onde é citado Satanás e os versos que se seguem. O contexto de Lucas 10:18 relaciona diretamente a queda de Satanás à missão dos discípulos, à submissão dos demônios e à chegada do Reino de Deus. A declaração não narra a criação de Satanás, não o identifica como um antigo querubim e não descreve sua transformação de bom para mau. Ela apresenta sua derrota e perda de autoridade diante da obra do Messias.⁹
Dentro de uma leitura escatológica mais ampla, essa derrota manifestada no ministério dos discípulos pode antecipar sua futura exclusão da esfera celestial e seu julgamento definitivo, sem que Lucas 10:18 e Apocalipse 12 precisem descrever exatamente o mesmo momento. A ideia de que Satanás foi um anjo bom, sentiu inveja dO Criador e foi expulso do céu é uma fábula religiosa sem base nestes textos. Mais uma doutrina tradicional é refutada à luz do contexto e das Escrituras.
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Notas de Rodapé
¹ The New Testament in the Original Greek. Byzantine Text Form, 2005. Compiled and arranged by Maurice A. Robinson and William G. Pierpont.
² Link do texto produzido por mim a respeito da falsa concepção de inferno: https://www.facebook.com/nicolas.breno.9421/posts/pfbid0Ca8e16xBXHDvgHazMTMYXXo6RvqVHZF57G7BcK8j223UNRnYyTwds9rXWHHNuzael
³ BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição? Uma abordagem bíblica sobre a natureza humana e o destino eterno. São Paulo: UNASPRESS, 2007. O autor demonstra que o Hades é o equivalente grego do Sheol hebraico, designando o domínio ou a sepultura dos mortos, e não um lugar de tormento consciente.
⁴ https://www.infoescola.com/portugues/preterito-imperfeito-do-indicativo-2/
⁵ https://www.conjugacao.com.br/preterito-imperfeito-do-indicativo/#:~:text=O%20pret%C3%A9rito%20imperfeito%20do%20indicativo,polido%20a%20pedidos%20e%20afirma%C3%A7%C3%B5es.
⁶ Conforme consta nos dicionários 𝘍𝘳𝘪𝘣𝘦𝘳𝘨, 𝘈𝘯𝘢𝘭𝘺𝘵𝘪𝘤𝘢𝘭 𝘎𝘳𝘦𝘦𝘬 𝘓𝘦𝘹𝘪𝘤𝘰𝘯; 𝘎𝘪𝘯𝘨𝘳𝘪𝘤𝘩, 𝘎𝘳𝘦𝘦𝘬 𝘕𝘛 𝘓𝘦𝘹𝘪𝘤𝘰𝘯 (𝘎𝘐𝘕); 𝘋𝘢𝘯𝘬𝘦𝘳, 𝘎𝘳𝘦𝘦𝘬 𝘕𝘛 𝘓𝘦𝘹𝘪𝘤𝘰𝘯 (𝘋𝘈𝘕).
⁷ Lourenço, Bergmann, Noções do Grego Bíblico, pag 29.
⁸ A tradição manuscrita de Lucas 10:18 apresenta pequenas variações na ordem das palavras. O texto majoritário e crítico (NA28/UBS4) traz ὡς ἀστραπὴν ἐκ τοῦ οὐρανοῦ πεσόντα ("como um raio do céu caindo"), enquanto o Códice Vaticano (B) coloca a expressão ὡς ἀστραπὴν ao final da frase. Nenhuma dessas variações altera o sentido fundamental da declaração: Satanás cai do céu como um relâmpago.
⁹ A tradição manuscrita de Lucas 10:1 e 10:17 apresenta uma variante: alguns manuscritos trazem "setenta" (ἑβδομήκοντα), enquanto outros trazem "setenta e dois" (ἑβδομήκοντα δύο). Os manuscritos que trazem apenas "setenta" incluem o Códice Sinaítico (א), Alexandrino (A), Washingtoniano (W), Ephraemi Rescriptus (C) e Bezae (D). Os que trazem "setenta e dois" incluem o Códice Vaticano (B) e as edições críticas modernas (NA28/UBS4). Essa variante não altera o argumento central do texto: a derrota de Satanás está ligada à missão dos discípulos e ao avanço do Reino.
Nicolas Breno
Mas o que O Messias realmente quis dizer com "Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago"? Ele estaria descrevendo a origem de um ser angelical e sua transformação moral? Vamos ler os versos anteriores para compreendermos o contexto antes de chegar ao verso 18.
A declaração de Jesus surge como resposta ao retorno dos setenta discípulos, que relatam a submissão dos demônios durante a proclamação do Reino. O texto realmente fala de Satanás caindo, não há dúvida disso. O que ele não afirma é que essa queda seja a história de sua origem ou de uma rebelião ocorrida antes da história humana.
"E aconteceu que, completando-se os dias para a sua assunção, manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém. E mandou mensageiros adiante de si; e, indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos, para lhe preparem pousada, mas não o receberam, porque o seu aspecto era como de quem ia a Jerusalém." 𝘓𝘶𝘤𝘢𝘴 9
A rivalidade de samaritanos com os judeus se dava no campo histórico, religioso e étnico. Aqui só pelo aspecto de quem ia para Jerusalém já não acolheram os mensageiros, quem sabe se fossem para outra localidade eles os receberiam.
"E depois disto designou o Messias ainda outros setenta, e mandou-os adiante da sua face, de dois em dois, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir. E dizia-lhes: Grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos; rogai, pois, aO Messias da seara que envie obreiros para a sua seara. Ide; eis que vos mando como cordeiros ao meio de lobos. Não leveis bolsa, nem alforje, nem alparcas; e a ninguém saudeis pelo caminho. E, em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: Paz seja nesta casa." 𝘓𝘶𝘤𝘢𝘴 10
Ainda continuando o relato sobre os mensageiros, O Messias mandou-os pelas cidades aonde Ele ia de passar, dando instrução de como se comportar com aqueles que os recebiam: "E, em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei do que vos for oferecido. E curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: É chegado a vós o reino de YHWH." E com aqueles que os não os recebiam: "Mas em qualquer cidade, em que entrardes e vos não receberem, saindo por suas ruas, dizei: Até o pó, que da vossa cidade se nos pegou, sacudimos sobre vós. Sabei, contudo, isto, que já o reino de YHWH é chegado a vós. E digo-vos que mais tolerância haverá naquele dia para Sodoma do que para aquela cidade. Ai de ti, Corazim, ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se fizessem as maravilhas que em vós foram feitas, já há muito, assentadas em saco e cinza, se teriam arrependido. Portanto, para Tiro e Sidom haverá menos rigor, no juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te levantaste até ao céu, até ao inferno serás abatida. Quem vos ouve a vós, a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me enviou." 𝘓𝘶𝘤𝘢𝘴 10
Vamos analisar mais precisamente o verso destacado por mim acima dentro do grego.
Καὶ σύ, Καπερναούμ, ἡ ἕως τοῦ οὐρανοῦ ὑψωθεῖσα, ἕως ᾍδου καταβιβασθήσῃ. (Lucas 10:15 BYZ¹)
Tradução: E tu, Cafarnaum, serás levantada até ao céu? Até ao Hades serás abatida.
A pergunta que O Messias faz é retórica, pois logo em seguida Ele mesmo responde a questão. O verbo καταβιβασθήσῃ é futuro passivo do indicativo, segunda pessoa do singular, de καταβιβάζω, com o sentido de "fazer descer", "rebaixar" ou "levar para baixo". Ele contrasta diretamente com a palavra ὑψωθεῖσα (particípio aoristo passivo de ὑψόω), que significa "elevar" ou "exaltar". Assim, Lucas 10:15 apresenta o contraste entre a exaltação de Cafarnaum e sua futura humilhação.
Em contraste à cidade de Cafarnaum que esteve em posição de autoridade "até ao céu", temos a expressão "Até ao Hades (ᾍδου)", deixando explícito a sua derrota e sua queda de uma questionável autoridade. ᾅδης (Hades) designa, de modo geral, o domínio dos mortos. Em Lucas 10:15, a descida ao Hades funciona como imagem de humilhação e juízo, em contraste com a pretensão de elevação "até ao céu". O texto não pretende descrever detalhadamente a geografia do mundo dos mortos nem justificar concepções populares posteriores de inferno, e nada tem a ver com o inferno imaginado por culturas pagãs e aceito no meio dos religiosos, sobretudo os cristãos.² No Novo Testamento, o Hades é o equivalente grego do Sheol hebraico, designando simplesmente o domínio ou a sepultura dos mortos, onde não há consciência, atividade ou tormento em fogo.³
Até agora lemos algo sobre Satanás? Queda de um ser? Querubim? 𝗡𝗔̃𝗢! Mas as palavras dO Messias ainda não estão finalizadas, vamos prosseguir com a leitura de Lucas 10.
"E voltaram os setenta com alegria, dizendo: Mestre, pelo teu nome, até os demônios se nos sujeitam. E disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu. Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum. Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus. Naquela mesma hora se alegrou O Messias no Espírito, e disse: Graças te dou, ó Pai, Criador do céu e da terra, que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste às criancinhas; assim é, ó Pai, porque assim te aprouve. Tudo por meu Pai foi entregue; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. E, voltando-se para os discípulos, disse-lhes em particular: Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes. Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram." 𝘓𝘶𝘤𝘢𝘴 10
Os setenta mensageiros que O nosso Messias mandou ir de dois em dois todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir, voltaram a Ele com alegria, e aí sim O Salvador responde a eles com esta frase. Os religiosos citam este verso fora de seu contexto, e ainda se esquecem do outro "pedaço" da frase (Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum), e só voltam a se lembrar em certos sermões ridículos quando estão falando sobre prosperidade e o "poder do cristão", e aí isso "calha" bem em citar, caso contrário não é mencionado porque não colabora com a narrativa. Vamos ao uma análise mais profunda do verso em questão.
𝗩𝗲𝗿𝘀𝗼 𝟭𝟴. E disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu.
𝟭. 𝗘𝘂 𝘃𝗶𝗮
Esta conjugação do verbo ver é encontrada nas seguintes versões protestantes em português: ARA (Almeida Revista e Atualizada, 1993), ARC (Almeida Revista e Corrigida, 2009), ARC (Almeida Revista e Corrigida, 1969) ACF (Almeida Revista e Fiel), JFA (João Ferreira de Almeida), NAA (Nova Almeida Atualizada, 2017), TB (Tradução Brasileira, 2010), ARIB (Almeida Revisada Imprensa Bíblica), SBB (Sociedade Bíblica Britânica). Nas versões católicas: Bíblia Matos Soares (1956), Bíblia de Jerusalém (2002), Vulgata Clementina (1952), La Santa Bíblia, TEB (Tradução Ecumênica) etc.
Ela está conjugada no modo pretérito imperfeito do indicativo, que designa um fato passado, mas não concluído (imperfeito = não perfeito, inacabado)⁴. Expressando, assim, uma ideia de continuidade e de duração no tempo.⁵ A pergunta que fica é: como podemos entender esta ação contínua? Satanás já não havia caído antes mesmo dO Criador vir encarnado a esta Terra? Ele estava caindo continuamente na época dO Messias? Para responder a estas questões, precisamos ir ao original grego.
O texto grego (NA28) traz: εἶπεν δὲ αὐτοῖς· ἐθεώρουν τὸν σατανᾶν ὡς ἀστραπὴν ἐκ τοῦ οὐρανοῦ πεσόντα.⁸ (verso 18)
𝟭. ἐθεώρουν (Correspondente no português: eu observava, eu contemplava)
Este é o verbo θεωρέω (theōreō), que significa perceber, ver, observar ou contemplar⁶. Ele está conjugado no "modo indicativo", que afirma fatos como uma realidade⁷.
Além disso, pelo verbo estar no tempo "imperfeito" (ἐθεώρουν), ele apresenta a ação a partir de seu desenvolvimento ou da perspectiva do observador: "eu estava vendo", "eu contemplava". O imperfeito descreve a cena em processo, como ela se desenrolava diante dos olhos do Messias.
É aqui que muitos cometem um erro gramatical grave. O imperfeito não exige que Satanás estivesse caindo repetidamente, nem impede que a cena contemplada envolva um acontecimento único. Portanto, a cronologia e o significado dessa queda não podem ser decididos apenas pelo tempo verbal "imperfeito". O que o imperfeito nos diz é que Jesus, naquele momento, estava contemplando ativamente uma realidade espiritual em curso, e não narrando uma biografia sobre a origem de Satanás no passado distante.
𝟮. ὡς ἀστραπὴν (𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗿𝗮𝗶𝗼)
Os discípulos relatam a submissão dos demônios (δαιμόνια - daimonia), e o Messias responde descrevendo a queda de Satanás (Σατανᾶν - Satanan) no singular. A relação entre as duas declarações apresenta Satanás como o poder adversário cuja autoridade é diretamente atingida pelo avanço do Reino. O versículo, entretanto, não utiliza formalmente a expressão "chefe dos demônios"; essa associação é teológica, não uma tradução direta do texto de Lucas 10:18.
A expressão em grego sobre esta queda de Satanás é facilmente entendida à luz de seu contexto imediato. A imagem que nos é apresentada é uma expressão da visão do Messias sobre a derrota de Satanás diante da vitória dos setenta. A palavra grega para raio é ἀστραπὴν (astrapēn), e o Messias a usou para expressar a ideia de rapidez, uma súbita perda de influência, devido ao poder da chegada do Reino de YHWH através do feito dO Messias e Seus discípulos. O Messias citou o céu (ἐκ τοῦ οὐρανοῦ), para nos dar a imagem do alto, e a perda de Satanás seria tão grande e veloz que ele cairia rapidamente como um raio. É o contraste absoluto: de cima para baixo, de autoridade para derrota, de poder para impotência, de exaltado para humilhado. A comparação com o relâmpago comunica a rapidez e a dramaticidade dessa queda. No contexto do retorno dos discípulos, a imagem representa a derrota e a perda de autoridade de Satanás diante da manifestação do Reino. "Cair do céu" funciona como imagem de rebaixamento e ruína, mas o texto não explica detalhadamente se Jesus descreve uma visão ocorrida naquele momento, uma antecipação profética da derrota final ou uma representação simbólica do efeito imediato da missão.
Conclusão. A ideia central do que está sendo abordado no texto de Lucas 9 e 10, é a ida dos mensageiros as cidades afim de propagar as Boas Novas dO Messias, a mando dEle próprio, e somente com a frase alegre proferida pelos setenta é que entra a figura de Satanás em meio a todo o texto. Se de fato o escritor de Lucas quisesse falar sobre uma suposta queda de um querubim que se rebelou contra Deus, ele não perderia tempo escrevendo sobre todo o processo com os mensageiros e seus detalhes, basta conferir o tamanho do verso 18 onde é citado Satanás e os versos que se seguem. O contexto de Lucas 10:18 relaciona diretamente a queda de Satanás à missão dos discípulos, à submissão dos demônios e à chegada do Reino de Deus. A declaração não narra a criação de Satanás, não o identifica como um antigo querubim e não descreve sua transformação de bom para mau. Ela apresenta sua derrota e perda de autoridade diante da obra do Messias.⁹
Dentro de uma leitura escatológica mais ampla, essa derrota manifestada no ministério dos discípulos pode antecipar sua futura exclusão da esfera celestial e seu julgamento definitivo, sem que Lucas 10:18 e Apocalipse 12 precisem descrever exatamente o mesmo momento. A ideia de que Satanás foi um anjo bom, sentiu inveja dO Criador e foi expulso do céu é uma fábula religiosa sem base nestes textos. Mais uma doutrina tradicional é refutada à luz do contexto e das Escrituras.
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Notas de Rodapé
¹ The New Testament in the Original Greek. Byzantine Text Form, 2005. Compiled and arranged by Maurice A. Robinson and William G. Pierpont.
² Link do texto produzido por mim a respeito da falsa concepção de inferno: https://www.facebook.com/nicolas.breno.9421/posts/pfbid0Ca8e16xBXHDvgHazMTMYXXo6RvqVHZF57G7BcK8j223UNRnYyTwds9rXWHHNuzael
³ BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição? Uma abordagem bíblica sobre a natureza humana e o destino eterno. São Paulo: UNASPRESS, 2007. O autor demonstra que o Hades é o equivalente grego do Sheol hebraico, designando o domínio ou a sepultura dos mortos, e não um lugar de tormento consciente.
⁴ https://www.infoescola.com/portugues/preterito-imperfeito-do-indicativo-2/
⁵ https://www.conjugacao.com.br/preterito-imperfeito-do-indicativo/#:~:text=O%20pret%C3%A9rito%20imperfeito%20do%20indicativo,polido%20a%20pedidos%20e%20afirma%C3%A7%C3%B5es.
⁶ Conforme consta nos dicionários 𝘍𝘳𝘪𝘣𝘦𝘳𝘨, 𝘈𝘯𝘢𝘭𝘺𝘵𝘪𝘤𝘢𝘭 𝘎𝘳𝘦𝘦𝘬 𝘓𝘦𝘹𝘪𝘤𝘰𝘯; 𝘎𝘪𝘯𝘨𝘳𝘪𝘤𝘩, 𝘎𝘳𝘦𝘦𝘬 𝘕𝘛 𝘓𝘦𝘹𝘪𝘤𝘰𝘯 (𝘎𝘐𝘕); 𝘋𝘢𝘯𝘬𝘦𝘳, 𝘎𝘳𝘦𝘦𝘬 𝘕𝘛 𝘓𝘦𝘹𝘪𝘤𝘰𝘯 (𝘋𝘈𝘕).
⁷ Lourenço, Bergmann, Noções do Grego Bíblico, pag 29.
⁸ A tradição manuscrita de Lucas 10:18 apresenta pequenas variações na ordem das palavras. O texto majoritário e crítico (NA28/UBS4) traz ὡς ἀστραπὴν ἐκ τοῦ οὐρανοῦ πεσόντα ("como um raio do céu caindo"), enquanto o Códice Vaticano (B) coloca a expressão ὡς ἀστραπὴν ao final da frase. Nenhuma dessas variações altera o sentido fundamental da declaração: Satanás cai do céu como um relâmpago.
⁹ A tradição manuscrita de Lucas 10:1 e 10:17 apresenta uma variante: alguns manuscritos trazem "setenta" (ἑβδομήκοντα), enquanto outros trazem "setenta e dois" (ἑβδομήκοντα δύο). Os manuscritos que trazem apenas "setenta" incluem o Códice Sinaítico (א), Alexandrino (A), Washingtoniano (W), Ephraemi Rescriptus (C) e Bezae (D). Os que trazem "setenta e dois" incluem o Códice Vaticano (B) e as edições críticas modernas (NA28/UBS4). Essa variante não altera o argumento central do texto: a derrota de Satanás está ligada à missão dos discípulos e ao avanço do Reino.
Nicolas Breno

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