A questão das línguas espirituais gera muita confusão porque frequentemente mistura-se o que aconteceu no dia de Pentecostes (Atos 2) com o dom descrito por Paulo em 1 Coríntios 14. Para quem tem dúvidas, aqui está uma síntese do que o ensino bíblico propõe.
Diferenciando os Fenômenos: Atos 2 vs. 1 Coríntios 14
O primeiro passo para sair da confusão é entender que existem manifestações diferentes.
O Milagre de Pentecostes (Atos 2): Ali ocorreu um fenômeno de comunicação com propósito evangelístico. As pessoas falavam e os ouvintes de várias nações entendiam em seus próprios idiomas maternos. Pode ter sido um milagre na fala (xenolalia) ou um milagre auditivo (a que defendo), onde o Espírito traduzia nos ouvidos de quem ouvia. O foco era ser entendido por "toda carne". Veja o texto de Atos 2:4 em que se afirma expressamente que "começaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem". Ou seja, o texto bíblico atribui o milagre tanto à fala quanto à audição. A visão apresentada (milagre auditivo) é uma das interpretações possíveis, e não um consenso absoluto.
O Dom em Corinto (1 Coríntios 14): Aqui, Paulo descreve uma língua que ninguém entende, pois quem fala não fala a homens, mas a Deus em mistério. Não é um idioma humano para pregação, mas uma linguagem espiritual de oração.
O Que é a "Língua Estranha"? (Natureza e Propósito)
Esse dom é uma catarse espiritual. É um recurso para quando a alma está tão cheia (de alegria, dor ou angústia) que a linguagem racional não dá conta de expressar. Dá para descrever como "transbordamento do espírito" ou "derrames do inconsciente", onde o espírito humano expressa a Deus o que é inefável, sem passar pelo crivo da razão. A Escritura é clara: "O que fala em língua estranha edifica-se a si mesmo". É uma terapia espiritual para o indivíduo, não para a plateia.
A Regra do "Quarto Fechado" (A Metáfora do Pijama)
Como o propósito é a edificação pessoal e a expressão íntima para Deus, o lugar desse dom não é o palco, mas a intimidade. O que vemos frequentemente nas denominações, no entanto, é o oposto.
Uma ilustração perfeita usada é que as línguas são como um pijama. O pijama é uma roupa confortável e adequada para a intimidade do seu quarto, mas você não o usa em uma cerimônia pública ou num casamento. Da mesma forma, as línguas são para a "intimidade da vida" com Deus. Se não houver quem interprete, a ordem é ficar calado e falar consigo mesmo e com Deus. O culto público exige racionalidade para que todos sejam edificados. Paulo diz preferir falar cinco palavras com entendimento (para ensinar os outros) do que dez mil palavras em línguas que ninguém entende.
Interpretação Não é Tradução
Há um equívoco comum de achar que interpretar as línguas é traduzir um código. Interpretar não é ser um poliglota espiritual. É um dom de sensibilidade para "sentir" o que o espírito daquela pessoa está orando e expressar esse sentido. Como quem fala em línguas fala a Deus (1 Co 14:2), a interpretação correta deve ser uma oração ou louvor dirigido a Deus, e não um recado de Deus para as pessoas (do tipo "Eis que te digo..."). Se a língua é oração, a interpretação revela essa oração.
O Perigo da "Loucura" e da Imitação
Infelizmente, muito do que se vê hoje não é o dom genuíno, mas comportamento aprendido. Muitas vezes cria-se um "dialeto religioso denominacional", onde as pessoas apenas repetem sons que ouviram dos líderes, sem nenhuma realidade espiritual por trás. Transformar o culto em uma gritaria coletiva sem entendimento faz com que os de fora pensem que os cristãos estão "loucos", exatamente como Paulo advertiu. Paulo compara isso a instrumentos musicais (como flauta ou trombeta) tocados sem distinção de notas: é apenas barulho que não prepara ninguém para a batalha.
Conclusão
O dom de línguas existe e é válido para o alívio e edificação do espírito humano na sua devoção privada. Porém, na vida pública entre seus irmãos, o amor e o entendimento devem ter a primazia. Buscar o êxtase sem o fruto do Espírito ou sem amor não tem proveito algum.
Nicolas Breno

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