Sempre que entro em debates com ateus ou com o pessoal da "teoria da simulação", aqueles que adoram perguntar: "Como você garante que não estamos vivendo numa Matrix ou que o mundo físico não é uma ilusão?", eu tinha uma resposta pronta. Eu puxava a carta de René Descartes e dizia: "Cogito, ergo sum" (Penso, logo existo). Vale ressaltar que a Matrix é espiritual e não física; esses misticistas de internet dizem que estamos vivendo uma simulação. Como você pode provar que você existe? Perguntam eles, dizem que estamos presos nesta matéria. É a isso que me refiro nesta introdução e que me levou a escrever esse texto. Ao citar Descartes, parecia uma resposta inteligente. Afinal, se eu estou pensando, eu tenho que existir, certo? Mas, estudando mais a fundo e lendo obras como “Como Ser Um Teísta Respeitado no Século XXI”, percebi que usar Descartes para defender a realidade é como tentar apagar fogo com gasolina. Eu estava caindo na armadilha deles sem saber.
O Problema da Dúvida Metódica (O Erro de Descartes)
Descartes começou sua filosofia com a chamada Dúvida Metódica. Simplificando: Ele decidiu que deveria duvidar de tudo o que os seus sentidos mostravam, (duvidar se o sol estava lá, se o corpo dele era real), até encontrar uma única verdade que sobrasse. O problema é que, ao fazer isso, ele se trancou dentro da própria mente. Ele provou que ele existia, mas criou um abismo entre a mente dele e o mundo lá fora. É exatamente isso que os místicos querem! Quando eles dizem que tudo é uma simulação, eles são filhos de Descartes. Eles querem que você duvide do óbvio.
A Minha Nova Posição: O Realismo Filosófico
Por isso, mudei minha abordagem. Hoje, eu me posiciono no Realismo Filosófico. Em termos práticos: O Realismo defende que a realidade existe de forma independente do que eu penso sobre ela, e que meus sentidos (visão, tato, audição), quando saudáveis, me mostram a verdade sobre o mundo.
Eu não preciso "provar" que a realidade existe através de um malabarismo mental. A realidade se impõe. Ela é evidente. Se eu vejo que está de dia, eu não preciso duvidar disso para parecer inteligente; eu apenas aceito a evidência. Duvidar do óbvio não é sabedoria, é suicídio intelectual.
Então, como respondo hoje a quem diz: "Prove que não estamos numa simulação"? Eu respondo devolvendo o ônus da prova. Em outras palavras: A obrigação de provar é de quem acusa. Eu digo: "Amigo, a realidade se apresenta para mim e para você como sólida, coerente e real. Nós vivemos nela, comemos nela e sofremos nela. Se você quer afirmar que tudo isso é mentira ou um 'software' rodando num computador alienígena, você é quem tem que me dar provas extraordinárias disso. A minha garantia é a própria realidade evidente. A sua dúvida é apenas uma fantasia sem base."
Abandonei o "Penso, logo existo" porque ele abre as portas para duvidarmos do mundo real. Agora fico com o "Percebo a realidade, logo ela existe". O mundo não é uma ilusão, e a fé no Evangelho é pautada em fatos históricos concretos, não em devaneios mentais de quem duvida da própria existência.
Referências
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Primeira Parte (Questões 79–85: O conhecimento humano). In: AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Aldo Vance. São Paulo: Loyola, 2002.
DESCARTES, René. Discurso do Método / Meditações. Introdução de Gilles-Gaston Granger; prefácio e notas de Gérard Lebrun. Tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção Os Pensadores, v. 15).
FREITAS, Vinícius França. A noção de 'senso comum' em Thomas Reid. Discurso, São Paulo, v. 50, n. 1, p. 219-237, 2020.
LADEIA, Donizeti Rodrigues. Resenha de: REID, Thomas. Investigação sobre a mente humana segundo os princípios do senso comum. Fides Reformata, São Paulo, v. 21, n. 2, p. 163-174, 2016.
REID, Thomas. Investigação sobre a mente humana segundo os princípios do senso comum. Tradução de Welson Alves. São Paulo: Vida Nova, 2013.
Nicolas Breno

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