Utilizarei a divisão moderna em capítulos e versículos apenas como instrumento de localização. Essas divisões não pertenciam ao texto original, por isso a interpretação deve considerar a unidade literária completa dos oráculos contra Tiro em Ezequiel 26–28. Vou demonstrar que este texto não faz menção a queda de Satanás, mas claro e como sempre recomendei, façam a leitura destes textos do jeito que ela foi escrita originalmente, sem parar em capítulos nem versículos para que se tenha um conhecimento geral sobre o contexto para ninguém os enganarem. Começarei pelo primeiro versículo:
"𝘌 𝘝𝘌𝘐𝘖 𝘢 𝘮𝘪𝘮 𝘢 𝘱𝘢𝘭𝘢𝘷𝘳𝘢 𝘥𝘦 𝘠𝘏𝘞𝘏, 𝘥𝘪𝘻𝘦𝘯𝘥𝘰"
A fórmula “veio a mim a palavra de YHWH” introduz diferentes oráculos e visões ao longo de Ezequiel. Ela não determina, sozinha, a natureza do personagem descrito. A identificação do destinatário deve ser feita pelas indicações explícitas do próprio oráculo. Em Ezequiel 28:2, o destinatário é chamado de “príncipe de Tiro” e é declarado homem, não Deus; em 28:12, a lamentação é dirigida ao “rei de Tiro”.
Verso 2. "Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro: Assim diz o Senhor YHWH: Porquanto o teu coração se elevou e disseste: Eu sou Deus (El), assento-me no assento (ou trono) de Deus (Elohim), no coração dos mares; e não passas de homem (Adam), e não és Deus (El), ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus (Elohim)"
Note a ênfase do texto. O Rei de Tiro não diz 'eu sou YHWH'. Ele usa os termos hebraicos El e Elohim, reivindicando para si uma divindade genérica. YHWH, o Deus verdadeiro, rebate dizendo: 'Você é Adam (homem) e não El (deus)'. O texto inteiro é um contraste irônico feito por YHWH contra um governante humano orgulho, e não a história de um anjo celestial caindo do paraíso. Isso demonstra a loucura deste governante em querer ser tratado como uma divindade, esquecendo que não passava de um mortal. E qual foi a origem dessa atitude? Nos capítulos anteriores (Ezequiel 26 e 27), lemos sobre o grandioso crescimento comercial e econômico do império de Tiro. Foi essa riqueza absoluta e o monopólio do comércio que floresceram em seu íntimo, gerando iniquidade e pecado contra o Pai. Por causa dessa arrogância fundamentada no poder terrestre, as consequências negativas e o juízo divino viriam sobre Tiro. O texto não descreve a queda de um querubim celestial, mas sim a queda de um homem que deixou o sucesso material subir à sua cabeça. A expressão "Porquanto o teu coração se elevou" descreve orgulho e arrogância. Embora essa linguagem seja comum na Escritura para descrever governantes humanos (como em Daniel 5:20, sobre Nabucodonosor), a prova real de que estamos lidando com um ser humano não está na palavra "coração", mas no motivo desse orgulho e na identidade que o próprio texto lhe atribui.
Alguns podem tentar forçar uma interpretação espiritual para esta passagem, mas vejamos para onde o texto nos leva. Lendo o verso 2 corrigido à luz do hebraico:
"[...] e disseste: Eu sou Deus (El), assento-me no assento de Deus (Elohim), no coração dos mares; e não passas de homem (Adam) e não és Deus (El)..." (Ezequiel 28:2)
Satanás sentado no meio dos mares? A cidade de Tiro era uma ilha fortíssima no meio do Mediterrâneo. Devido à sua posição geográfica inexpugnável e à sua riqueza, o governante humano de Tiro encheu-se de soberba, julgando-se intocável como um deus pagão (El/Elohim). O texto não fala de uma queda celestial, mas da arrogância de um rei humano que controlava os mares.
E as evidências de que se trata de um ser humano de carne e osso continuam:
Verso 3: "Eis que tu és mais sábio que Daniel; e não há segredo algum que se possa esconder de ti."
A afirmação "és mais sábio que Daniel" deve ser lida no contexto da ironia profética. YHWH está usando o sarcasmo para expor a ilusão do governante arrogante, que se considerava um deus. O texto não está atribuindo onisciência real a ele. Como os versículos seguintes revelam, essa suposta "sabedoria" não era o conhecimento de todas as coisas, mas sim astúcia humana. E astúcia para quê? Veja os versos 4 e 5:
Verso 4: "Pela tua sabedoria e pelo teu entendimento alcançaste para ti riquezas, e adquiriste ouro e prata nos teus tesouros."
Verso 5: "Pela extensão da tua sabedoria no teu comércio aumentaste as tuas riquezas; e eleva-se o teu coração por causa das tuas riquezas."
A própria Escritura explica o que significava essa "sabedoria": era a habilidade no comércio! Pergunto: o ser espiritual Ha Satan alguma vez realizou transações comerciais? Você já leu em algum lugar das Escrituras que Satanás negociava moedas de ouro e prata para enriquecer? Acumulou ouro e prata em tesouros terrenos? Fez de Tiro o maior centro comercial do mundo antigo, como detalha o capítulo 27? É evidente que não. Aqui está a sentença definitiva contra a tese da "Queda de Satanás": o orgulho que fez o coração deste ser se elevar não foi uma rebelião cósmica, mas a ostentação gerada pelo lucro material. Você já leu em algum lugar das Escrituras que um anjo caído importava, exportava e guardava moedas em cofres para enriquecer? O texto é claro: foi o comércio que gerou a riqueza, e foi a riqueza que gerou a soberba.
É impossível aplicar esses versos a um anjo caído. O texto é histórico, literal e direto: o Rei (ou Príncipe) de Tiro foi um homem (Adam) cujo sucesso comercial fez com que ele se considerasse um deus no meio dos mares.
Aqui o texto entra no juízo divino. Vejamos a tradução fiel do hebraico (BHS):
Verso 7: "Por isso, eis que eu trarei sobre ti estrangeiros, os mais terríveis dentre as nações, os quais desembainharão as suas espadas contra a formosura da tua sabedoria, e mancharão o teu resplendor."
Verso 8: "Ao abismo te farão descer, e morrerás da morte dos traspassados no meio dos mares."
Verso 9: "Acaso dirás ainda diante daquele que te mata: 'Eu sou Deus (אֱלֹהִים - Elohim)'? Mas tu és homem (אָדָם - Adam) e não Deus (וְלֹא־אֵל - wǝ-lō-ʾēl), na mão do que te traspassa."
Verso 10: "Da morte dos incircuncisos morrerás, por mão de estrangeiros, porque eu o falei, diz o Senhor YHWH." (Ezequiel 28:7-10, BHS)
Alguém ousaria afirmar que estas palavras descrevem a "queda de Satanás"? Pense com sinceridade.
Muitos tentam espiritualizar esta passagem alegando que o Rei de Tiro era apenas um "tipo" de Satanás. Mas a refutação não depende apenas de fazer perguntas como "como uma espada física pode atingir um espírito?" ou "como um ser invisível desce a uma cova?". A prova irrefutável está no que o próprio Criador declara.
YHWH não está narrando uma guerra cósmica. Ele está decretando a queda de um império político e comercial humano. O texto identifica claramente:
1 - O método da queda: A espada de invasores estrangeiros (o exército babilônico de Nabucodonosor, como detalhado em Ezequiel 26:7-11).
2 - O local da morte: No meio dos mares. Tiro era uma fortaleza insular; foi lá que o orgulho deste governante foi traspassado.
3 - O estado do morto: Ele desceria ao abismo (לַשַּׁ֖חַת - laššaḥat, cova ou sepulcro), a morte comum de todos os humanos traspassados em batalha.
E o selo final no verso 9 destrói qualquer tentativa de aplicar o texto a Ha Satan: "Mas tu és homem (Adam) e não Deus".
Quando foi que um anjo, querubim ou ser espiritual foi morto pela espada de homens estrangeiros e incircuncisos? Como Satanás poderia ter morrido nas mãos de soldados babilônicos no meio do mar e ainda assim estar vivo e ativo no Novo Testamento? É impossível. Até agora, tudo o que lemos é o juízo histórico, literal e direto sobre o Príncipe de Tiro: um ser humano cuja economia foi destruída por uma invasão militar.
Verso 11. "Veio a mim a palavra de YHWH, dizendo:"
Verso 12. "Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Criador YHWH: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura"
Quando foi que algum ser espiritual (anjo, demônio) se tornou rei? Quem o constituiu rei? Quem o viu para falar de sua beleza? E como adquiriu perfeição? As expressões "sabedoria" , "perfeito" e "formosura" , são encontradas também nos capítulos anteriores, ou seja, está dando continuidade a sentença, logo não está se tratando de um ser espiritual (Ha Satan).
Verso 13: "Estiveste no Éden, jardim de YHWH; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: a sardônia, o topázio, o diamante, a turquesa, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo, a esmeralda e o ouro..."
Sobre este verso, duas questões precisam ser tratadas com honestidade. Primeiro: As pedras preciosas. O texto descreve um ser coberto de sardônias, diamantes, esmeraldas e ouro. Se este verso se refere a Ha Satan, pergunta-se: anjos usam roupas cravejadas de pedrarias terrenas? O texto não descreve a glória intrínseca de um querubim celestial, mas sim a ostentação de um monarca humano coberto de joias, algo coerente com o Rei de Tiro, que era o maior comerciante de luxos do mundo antigo. A própria lista de pedras citadas aqui remete ao peitoral do Sumo Sacerdote de Israel (Êxodo 28:17-20), mostrando que este homem desfrutava de um privilégio e de uma beleza que ele perverteu por causa do comércio.
Segundo: A questão dos "tambores" e a fábula do "Satanás músico". Muitas Bíblias antigas em português (como a Almeida Corrigida) traduzem a parte final deste verso dizendo que "em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros". Com base nessa tradução controversa, os religiosos criaram a doutrina de que Satanás era o "ministro de música" do céu antes de cair.
Isso é um absurdo exegético que não sobrevive ao escrutínio dos textos originais e do aparato crítico. A palavra hebraica usada aqui é תֻּפֶּיךָ (tupêka), que vem de toph (tambor/adufe). No entanto, quando consultamos as testemunhas textuais mais antigas (o aparato crítico da BHS), descobrimos que nenhuma das versões antigas da Bíblia viu instrumentos musicais neste versículo. Veja o que os textos antigos realmente dizem:
Septuaginta (LXX) - tradução grega feita 200 anos antes de Cristo: traduz como "Enchestes os teus tesouros". Nada de música.
Vulgata Latina - tradução de Jerônimo no século IV: "A obra do teu adorno". Nada de música.
Aquila - tradutor grego do século II: "A obra da tua beleza". Nada de música.
Peshitta Siríaca - século IV/V: "A casa das tuas minas/pedreiras estava cheia". Nada de música.
Além disso, o aparato crítico da Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS) aponta que a palavra נְקָבֶיךָ (neqabêka, traduzida como "furos" ou "pífaros") é provavelmente uma dittografia (duplicação por erro de copista) e deveria ser deletada do texto.
O que aconteceu foi o seguinte: a palavra hebraica para "engastes" ou "trabalhos de ourives" (פִּתּוּחֶיךָ, pituchêka) foi confundida com a palavra para "tambores" (תֻּפֶּיךָ, tupêka) por causa da semelhança visual entre as letras. É por isso que as traduções modernas e confiáveis corrigiram o erro e dizem: "os teus engastes e encaixes foram preparados".
A tese de que "Satanás era o músico de Deus" não passa de um mal-entendido textual baseado num erro de cópia que as versões mais antigas nem sequer cometeram. O foco do versículo não é música celestial, mas a riqueza material, as joias e o comércio de luxo do Rei de Tiro.
Introdução - A máscara do mestre e o arquivo que o desmente Há personagens que não precisam ser destruídos por seus inimigos. Basta abrir os livros, as aulas, os artigos antigos, as entrevistas, os dossiês esquecidos e os documentos que seus próprios admiradores preferem deixar de lado. Olavo de Carvalho é um desses casos. Durante anos, foi apresentado como filósofo, professor, patriarca intelectual da direita brasileira, defensor da civilização cristã e inimigo declarado do comunismo, da gnose moderna, da Maçonaria, do globalismo, da revolução cultural e da degradação espiritual do Ocidente. Mas, quando se abandona a lenda e se entra no arquivo, a imagem se parte.¹ O Olavo público construiu uma fachada de combate religioso e moral. O Olavo documental, porém, atravessa astrologia, alquimia, simbolismo hermético, tradicionalismo perenialista, Guénon, Schuon, tariqas islâmicas, crítica ambígua à Maçonaria, revisionismo histórico, desinformação política e uma guerra permanente contra qual...

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