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O texto em Ezequiel 28 se refere a queda de Ha Satan?

Utilizarei a divisão moderna em capítulos e versículos apenas como instrumento de localização. Essas divisões não pertenciam ao texto original, por isso a interpretação deve considerar a unidade literária completa dos oráculos contra Tiro em Ezequiel 26–28. Vou demonstrar que este texto não faz menção a queda de Satanás, mas claro e como sempre recomendei, façam a leitura destes textos do jeito que ela foi escrita originalmente, sem parar em capítulos nem versículos para que se tenha um conhecimento geral sobre o contexto para ninguém os enganarem. Começarei pelo primeiro versículo: "𝘌 𝘝𝘌𝘐𝘖 𝘢 𝘮𝘪𝘮 𝘢 𝘱𝘢𝘭𝘢𝘷𝘳𝘢 𝘥𝘦 𝘠𝘏𝘞𝘏, 𝘥𝘪𝘻𝘦𝘯𝘥𝘰" A fórmula “veio a mim a palavra de YHWH” introduz diferentes oráculos e visões ao longo de Ezequiel. Ela não determina, sozinha, a natureza do personagem descrito. A identificação do destinatário deve ser feita pelas indicações explícitas do próprio oráculo. Em Ezequiel 28:2, o destinatário é chamado de “príncipe de Tiro” e é declarado homem, não Deus; em 28:12, a lamentação é dirigida ao “rei de Tiro”. Verso 2. "Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro: Assim diz o Senhor YHWH: Porquanto o teu coração se elevou e disseste: Eu sou Deus (El), assento-me no assento (ou trono) de Deus (Elohim), no coração dos mares; e não passas de homem (Adam), e não és Deus (El), ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus (Elohim)" Note a ênfase do texto. O Rei de Tiro não diz 'eu sou YHWH'. Ele usa os termos hebraicos El e Elohim, reivindicando para si uma divindade genérica. YHWH, o Deus verdadeiro, rebate dizendo: 'Você é Adam (homem) e não El (deus)'. O texto inteiro é um contraste irônico feito por YHWH contra um governante humano orgulho, e não a história de um anjo celestial caindo do paraíso. Isso demonstra a loucura deste governante em querer ser tratado como uma divindade, esquecendo que não passava de um mortal. E qual foi a origem dessa atitude? Nos capítulos anteriores (Ezequiel 26 e 27), lemos sobre o grandioso crescimento comercial e econômico do império de Tiro. Foi essa riqueza absoluta e o monopólio do comércio que floresceram em seu íntimo, gerando iniquidade e pecado contra o Pai. Por causa dessa arrogância fundamentada no poder terrestre, as consequências negativas e o juízo divino viriam sobre Tiro. O texto não descreve a queda de um querubim celestial, mas sim a queda de um homem que deixou o sucesso material subir à sua cabeça. A expressão "Porquanto o teu coração se elevou" descreve orgulho e arrogância. Embora essa linguagem seja comum na Escritura para descrever governantes humanos (como em Daniel 5:20, sobre Nabucodonosor), a prova real de que estamos lidando com um ser humano não está na palavra "coração", mas no motivo desse orgulho e na identidade que o próprio texto lhe atribui. Alguns podem tentar forçar uma interpretação espiritual para esta passagem, mas vejamos para onde o texto nos leva. Lendo o verso 2 corrigido à luz do hebraico: "[...] e disseste: Eu sou Deus (El), assento-me no assento de Deus (Elohim), no coração dos mares; e não passas de homem (Adam) e não és Deus (El)..." (Ezequiel 28:2) Satanás sentado no meio dos mares? A cidade de Tiro era uma ilha fortíssima no meio do Mediterrâneo. Devido à sua posição geográfica inexpugnável e à sua riqueza, o governante humano de Tiro encheu-se de soberba, julgando-se intocável como um deus pagão (El/Elohim). O texto não fala de uma queda celestial, mas da arrogância de um rei humano que controlava os mares. E as evidências de que se trata de um ser humano de carne e osso continuam: Verso 3: "Eis que tu és mais sábio que Daniel; e não há segredo algum que se possa esconder de ti." A afirmação "és mais sábio que Daniel" deve ser lida no contexto da ironia profética. YHWH está usando o sarcasmo para expor a ilusão do governante arrogante, que se considerava um deus. O texto não está atribuindo onisciência real a ele. Como os versículos seguintes revelam, essa suposta "sabedoria" não era o conhecimento de todas as coisas, mas sim astúcia humana. E astúcia para quê? Veja os versos 4 e 5: Verso 4: "Pela tua sabedoria e pelo teu entendimento alcançaste para ti riquezas, e adquiriste ouro e prata nos teus tesouros." Verso 5: "Pela extensão da tua sabedoria no teu comércio aumentaste as tuas riquezas; e eleva-se o teu coração por causa das tuas riquezas." A própria Escritura explica o que significava essa "sabedoria": era a habilidade no comércio! Pergunto: o ser espiritual Ha Satan alguma vez realizou transações comerciais? Você já leu em algum lugar das Escrituras que Satanás negociava moedas de ouro e prata para enriquecer? Acumulou ouro e prata em tesouros terrenos? Fez de Tiro o maior centro comercial do mundo antigo, como detalha o capítulo 27? É evidente que não. Aqui está a sentença definitiva contra a tese da "Queda de Satanás": o orgulho que fez o coração deste ser se elevar não foi uma rebelião cósmica, mas a ostentação gerada pelo lucro material. Você já leu em algum lugar das Escrituras que um anjo caído importava, exportava e guardava moedas em cofres para enriquecer? O texto é claro: foi o comércio que gerou a riqueza, e foi a riqueza que gerou a soberba. É impossível aplicar esses versos a um anjo caído. O texto é histórico, literal e direto: o Rei (ou Príncipe) de Tiro foi um homem (Adam) cujo sucesso comercial fez com que ele se considerasse um deus no meio dos mares. Aqui o texto entra no juízo divino. Vejamos a tradução fiel do hebraico (BHS): Verso 7: "Por isso, eis que eu trarei sobre ti estrangeiros, os mais terríveis dentre as nações, os quais desembainharão as suas espadas contra a formosura da tua sabedoria, e mancharão o teu resplendor." Verso 8: "Ao abismo te farão descer, e morrerás da morte dos traspassados no meio dos mares." Verso 9: "Acaso dirás ainda diante daquele que te mata: 'Eu sou Deus (אֱלֹהִים - Elohim)'? Mas tu és homem (אָדָם - Adam) e não Deus (וְלֹא־אֵל - wǝ-lō-ʾēl), na mão do que te traspassa." Verso 10: "Da morte dos incircuncisos morrerás, por mão de estrangeiros, porque eu o falei, diz o Senhor YHWH." (Ezequiel 28:7-10, BHS) Alguém ousaria afirmar que estas palavras descrevem a "queda de Satanás"? Pense com sinceridade. Muitos tentam espiritualizar esta passagem alegando que o Rei de Tiro era apenas um "tipo" de Satanás. Mas a refutação não depende apenas de fazer perguntas como "como uma espada física pode atingir um espírito?" ou "como um ser invisível desce a uma cova?". A prova irrefutável está no que o próprio Criador declara. YHWH não está narrando uma guerra cósmica. Ele está decretando a queda de um império político e comercial humano. O texto identifica claramente: 1 - O método da queda: A espada de invasores estrangeiros (o exército babilônico de Nabucodonosor, como detalhado em Ezequiel 26:7-11). 2 - O local da morte: No meio dos mares. Tiro era uma fortaleza insular; foi lá que o orgulho deste governante foi traspassado. 3 - O estado do morto: Ele desceria ao abismo (לַשַּׁ֖חַת - laššaḥat, cova ou sepulcro), a morte comum de todos os humanos traspassados em batalha. E o selo final no verso 9 destrói qualquer tentativa de aplicar o texto a Ha Satan: "Mas tu és homem (Adam) e não Deus". Quando foi que um anjo, querubim ou ser espiritual foi morto pela espada de homens estrangeiros e incircuncisos? Como Satanás poderia ter morrido nas mãos de soldados babilônicos no meio do mar e ainda assim estar vivo e ativo no Novo Testamento? É impossível. Até agora, tudo o que lemos é o juízo histórico, literal e direto sobre o Príncipe de Tiro: um ser humano cuja economia foi destruída por uma invasão militar. Verso 11. "Veio a mim a palavra de YHWH, dizendo:" Verso 12. "Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Criador YHWH: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura" Quando foi que algum ser espiritual (anjo, demônio) se tornou rei? Quem o constituiu rei? Quem o viu para falar de sua beleza? E como adquiriu perfeição? As expressões "sabedoria" , "perfeito" e "formosura" , são encontradas também nos capítulos anteriores, ou seja, está dando continuidade a sentença, logo não está se tratando de um ser espiritual (Ha Satan). Verso 13: "Estiveste no Éden, jardim de YHWH; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: a sardônia, o topázio, o diamante, a turquesa, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo, a esmeralda e o ouro..." Sobre este verso, duas questões precisam ser tratadas com honestidade. Primeiro: As pedras preciosas. O texto descreve um ser coberto de sardônias, diamantes, esmeraldas e ouro. Se este verso se refere a Ha Satan, pergunta-se: anjos usam roupas cravejadas de pedrarias terrenas? O texto não descreve a glória intrínseca de um querubim celestial, mas sim a ostentação de um monarca humano coberto de joias, algo coerente com o Rei de Tiro, que era o maior comerciante de luxos do mundo antigo. A própria lista de pedras citadas aqui remete ao peitoral do Sumo Sacerdote de Israel (Êxodo 28:17-20), mostrando que este homem desfrutava de um privilégio e de uma beleza que ele perverteu por causa do comércio. Segundo: A questão dos "tambores" e a fábula do "Satanás músico". Muitas Bíblias antigas em português (como a Almeida Corrigida) traduzem a parte final deste verso dizendo que "em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros". Com base nessa tradução controversa, os religiosos criaram a doutrina de que Satanás era o "ministro de música" do céu antes de cair. Isso é um absurdo exegético que não sobrevive ao escrutínio dos textos originais e do aparato crítico. A palavra hebraica usada aqui é תֻּפֶּיךָ (tupêka), que vem de toph (tambor/adufe). No entanto, quando consultamos as testemunhas textuais mais antigas (o aparato crítico da BHS), descobrimos que nenhuma das versões antigas da Bíblia viu instrumentos musicais neste versículo. Veja o que os textos antigos realmente dizem: Septuaginta (LXX) - tradução grega feita 200 anos antes de Cristo: traduz como "Enchestes os teus tesouros". Nada de música. Vulgata Latina - tradução de Jerônimo no século IV: "A obra do teu adorno". Nada de música. Aquila - tradutor grego do século II: "A obra da tua beleza". Nada de música. Peshitta Siríaca - século IV/V: "A casa das tuas minas/pedreiras estava cheia". Nada de música. Além disso, o aparato crítico da Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS) aponta que a palavra נְקָבֶיךָ (neqabêka, traduzida como "furos" ou "pífaros") é provavelmente uma dittografia (duplicação por erro de copista) e deveria ser deletada do texto. O que aconteceu foi o seguinte: a palavra hebraica para "engastes" ou "trabalhos de ourives" (פִּתּוּחֶיךָ, pituchêka) foi confundida com a palavra para "tambores" (תֻּפֶּיךָ, tupêka) por causa da semelhança visual entre as letras. É por isso que as traduções modernas e confiáveis corrigiram o erro e dizem: "os teus engastes e encaixes foram preparados". A tese de que "Satanás era o músico de Deus" não passa de um mal-entendido textual baseado num erro de cópia que as versões mais antigas nem sequer cometeram. O foco do versículo não é música celestial, mas a riqueza material, as joias e o comércio de luxo do Rei de Tiro.

O Uso Profético da Imagem do "Éden"

Quando o livro de Ezequiel utiliza a expressão "Éden, jardim de Deus", não está tentando nos transportar para o jardim do Gênesis nem descrevendo a origem de Satanás. O profeta usa a imagem do Éden como uma linguagem poética para expressar o auge do esplendor, da beleza, dos privilégios e da fertilidade, geralmente para contrastar essa glória original com a ruína total que vem a seguir no juízo. E a prova de que essa é uma estratégia literária profética (e não uma descrição histórica do Gênesis) está no fato de que Ezequiel aplica a mesma linguagem do Éden a outros governantes humanos. Veja: Ezequiel 31:9 (sobre o Faraó do Egito) "Formoso o fiz com a multidão dos seus ramos; e todas as árvores do Éden, que estavam no jardim de Deus (אֲשֶׁר בְּגַן הָאֱלֹהִֽים), tiveram inveja dele." (Ezequiel 31:9, BHS) Ninguém ousa afirmar que o Faraó do Egito foi literalmente o Adão ou um ser celestial que habitava no jardim do Éden com Adão e Eva. O profeta está descrevendo a grandeza do império egípcio usando uma metáfora de esplendor botânico e paradisíaco. Se é impossível atribuir essas expressões do Éden a Satanás no capítulo 31 sem destruir todo o contexto, a mesma regra hermenêutica deve ser aplicada no capítulo 28. Ezequiel 31:16 (novamente sobre o Faraó) "Ao som da sua queda fiz tremer as nações, quando o fiz descer ao Seol (שְׁאוֹלָה) com os que descem à cova; e todas as árvores do Éden, a flor e o melhor do Líbano, todas as árvores que bebem águas, se consolavam nas partes mais baixas da terra." (Ezequiel 31:16, BHS) O texto diz que o Faraó desceu ao Sheol e que as "árvores do Éden" estavam nas partes mais baixas da terra. Imagine o absurdo de aplicar isso literalmente a um ser espiritual. Trata-se de linguagem figurada e altamente poética.

As Pedras Preciosas e o Dia da Criação

De volta a Ezequiel 28:13, a lamentação diz que "toda a pedra preciosa era a tua cobertura" e que "no dia em que foste criado foram preparados [os teus engastes]". A correção necessária aqui é não reduzir essa passagem a uma mera descrição das "roupas que o rei vestia no dia a dia". A lamentação combina três coisas: o esplendor real (a riqueza de Tiro), a linguagem sacerdotal (a lista de pedras remete diretamente ao peitoral do Sumo Sacerdote de Êxodo 28:17-20) e o simbolismo do jardim divino. O profeta está retratando o Rei de Tiro em seu auge de glória e privilégio, como se ele fosse um Adão no Éden, vivendo em um estado de perfeita formosura e posição de destaque diante de Deus. A expressão "no dia em que foste criado" (בְּיוֹם הִבָּרְאֲךָ) faz parte da representação poética da origem e da posição inicial do personagem. A lamentação descreve poeticamente o início de sua glória antes de sua corrupção. Alguns intérpretes relacionam essa expressão à coroação ou entronização do rei (o momento em que foi "estabelecido" no poder), mas o texto não permite afirmar isso com certeza. O que fica claro é que YHWH está retratando o Rei de Tiro em seu auge de glória e privilégio, como se ele fosse um Adão no Éden, vivendo em um estado de formosura e posição de destaque diante de Deus. O capítulo anterior (Ezequiel 26:13) já atestava que Tiro era uma cidade de grande festividade: "E farei cessar o ruído das tuas cantigas, e o som das tuas harpas não se ouvirá mais". O trono de Tiro era glorioso, repleto de música, festas e ouro. Mas assim como Adão caiu no Éden pela sua própria soberba, este rei, que desfrutava de uma posição de extremo privilégio, arruinou-se por causa da iniquidade gerada pelo seu comércio. Verso 14: "Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de YHWH estavas, no meio das pedras afogueadas andavas." Aqui os defensores da tese de Satanás gritam: "Viu! Ele é um querubim ungido!". Mas uma análise séria do hebraico e do aparato crítico da Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS) mostra que este verso não descreve a origem de um anjo caído. Primeiro, precisamos entender a expressão "ungido para cobrir". O verbo hebraico para "cobrir" é סָכַךְ (suk). Segundo léxicos como o de Holladay, esse verbo tem um contexto estritamente cultual e de guarda. Ele era usado para descrever a ação dos querubims sobre a Arca da Aliança, que "cobriam" (סֹכֵךְ - sōkhēkh) o propiciatório (1 Reis 8:7). A função desses querubins era isolar, guardar e bloquear o acesso humano à glória santa de Deus. A pergunta correta não é "quem Satanás protegia do mal?", mas sim: desde quando Satanás, o pai da mentira, é encarregado de ser o guarda honorário e sacerdotal da santidade de Deus? A leitura massorética (o texto hebraico padrão) traz אַתְ־כְּרוּב (attə-khərûv - "Tu [és/eras] querubim"). O aparato crítico da BHS revela que a Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita séculos antes de Cristo) trazia uma leitura diferente: μετὰ τοῦ χερουβ (meta tou cherub), que significa "com o querubim". Isso significa que, na antiguidade, muitos liam o texto não como se o Rei de Tiro fosse o querubim, mas sim que ele caminhava ao lado do querubim protetor no monte santo de Deus. E por falar no monte santo, o aparato da BHS também aponta que a palavra "Deus" (אֱלֹהִים - Elohim) no final da frase "monte santo de Deus" apresenta problemas textuais (sinalizados no aparato com an cj - an conjungendum?), levando alguns editores a questionarem se a frase deveria ser lida como está ou ajustada. Por fim, a palavra traduzida como "ungido" é מִמְשַׁח (mimšaḥ). A Masora Parva (as notas marginais dos escribas judeus no Codex de Leningrado) marca esta palavra com a letra Lamed (ל), o que indica que ela é um Hapax legomenon: uma palavra que aparece apenas uma vez em toda a Bíblia Hebraica. Isso dificulta saber se o termo significa "ungido" no sentido de consagração sacerdotal, ou "de grande extensão" no sentido geográfico. Construir uma doutrina inteira sobre a origem, a identidade e a queda de Satanás baseando-se numa única palavra de ocorrência única, num texto que sofre de variantes graves nas versões mais antigas, não é exegese; é forçar o texto para caber numa teologia pré-fabricada. A imagem do verso 14 não é a biografia de um ser celestial. É uma linguagem altamente poética descrevendo o privilégio sem igual do Rei de Tiro. Ele foi estabelecido por Deus em uma posição de máxima autoridade e proximidade do sagrado (como um Adão no Éden guardado por querubins), mas corrompeu esse cargo sagrado por causa da sua ganância comercial. Verso 15: "Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti." Muitos leem a palavra "perfeito" e concluem: "Só Deus ou um ser celestial sem pecado original poderia ser chamado de perfeito!". Mas isso revela desconhecimento do hebraico bíblico. O adjetivo hebraico usado aqui é תָּמִים (tamim). Segundo léxicos de referência como o HALOT e o de Holladay, tamim comunica integridade, completude, retidão ou condição irrepreensível. Ele não significa "incapacidade metafísica de pecar". A prova disto é que a própria Escritura usa a exata mesma palavra para descrever seres humanos comuns que eram justos e íntegros, como Noé (Gênesis 6:9) e Abraão (Gênesis 17:1). Também era a palavra usada para descrever animais de sacrifício "sem defeito" (Êxodo 12:5). Dizer que o Rei de Tiro era tamim em seus caminhos significa dizer que, em sua origem e entronização, ele atuava com retidão. A lamentação contrasta essa condição inicial idealizada e irrepreensível com a corrupção que viria a seguir. O próprio verso identifica o que destruiu essa "perfeição": a palavra hebraica para "iniqüidade" é עַוְלָה (awlah), que significa perversidade, injustiça ou distorção. E de onde veio essa iniqüidade? O verso 18 responde: "pela iniqüidade das tuas mercadorias". Não foi uma rebelião cósmica no céu. Foi a ganância comercial, a violência e o orgulho de um monarca humano que corrompeu um caminho que antes era íntegro. Um ser humano perfeito (íntegro) pode errar quando deixa o orgulho e a ganância dominarem seu coração, assim como aconteceu com Adão no Éden. Verso 16. "Na multiplicação do teu comércio encheram o teu interior de violência, e pecaste; por isso te lancei, profanado, do monte de YHWH, e te fiz perecer, ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas." O que os anjos (Satanás) comercializavam e com quem? acho que eram as pedras, vejo que comercializavam entre eles (anjos) e porque hoje não comercializam conosco? Então se Satanás, pereceu, morreu, então ele ressuscitou! Pois ele existe atualmente. A expressão “ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas” , fica impossível associar este versículo a Satanás, pois tudo está relacionado ao comércio, trabalho, que Tiro realizou, não pode se isolar palavras e personificá-las, quando a mesma não dá apoio para isso. Verso 17. "Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, para que olhem para ti." Então Satanás não é mais assim tão sábio quanto antes para ter se corrompido, quais reis foram este? Então existiam reis antes de Satanás? Quais eram eles? São seres espirituais certo? Quais eram seus nomes? Se ele corrompeu sua sabedoria neste momento, então quem foi que seduziu Eva através da serpente lá em Gênesis? Ninguém pecou lá então? Verso 18. "Pela multidão das tuas iniqüidades, pela injustiça do teu comércio profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu e te tornei em cinza sobre a terra, aos olhos de todos os que te vêem." EBA! Satanás morreu, estamos livres do mal agora, as Escrituras Sagradas se contradiz agora, é mentira que temos que resistir a ele e que anda ao nosso derredor, não há pecado mais! Ele não existe mais, quem tentou o Messias? Ah, não é possível que seja Satanás, este verso se refere a ele não é mesmo? (ALERTA, ALTAS DOSES DE SARCASMO) A expressão "teus santuários" , se refere a que santuário de Satanás? Ou melhor, quais santuários? Quantos eram? Ele já teve uma denominação (chamado erroneamente de igreja e templo) ? Quem construiu? Onde e quando? A expressão: “te tornei em cinza sobre a terra, aos olhos de todos os que te vêem” , então quer dizer que Satanás tem corpo para ser queimado, ou você acha que um espírito queima? (Eis a outra farsa: o inferno) Quem foi que viu Satanás se tornando em cinzas? Qual a localidade nos dias atuais? Aonde é relatado na Escritura Sagrada que Satanás foi consumido a cinzas? Hmmm, estranho eim. Último verso para finalizar. Verso 19. "Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; em grande espanto te tornaste, e nunca mais subsistirá." Definição de subsistirá: 1. Ter existência; viver; durar. 2. Persistir. 3. Permanecer; manter-se; estar em vigor. Ha Satan ainda existe? Ele está em vigor de enganar e influenciar os outros a pecar? Porque neste verso está claro: "nunca mais subsistirá". O Criador volta atrás com sua palavra? Ele mente?

Conclusão

Irmãos, claro que Ha Satan existe, é um ser maligno que foi criado pelo Pai, e as Escrituras nos mostram que ele é mau desde o princípio (João 8:44; 1 João 3:8). A primeira mentira da serpente ("certamente não morrerás") já demonstra sua natureza enganadora desde o Éden. O que este estudo sobre Ezequiel 28 demonstra é que este texto específico não fala de Satanás. Ele se dirige diretamente ao governante de Tiro, utilizando linguagem poética, edênica e querúbica para descrever sua glória, orgulho e queda. A aplicação destes capítulos à origem de Satanás é uma interpretação tipológica posterior, imposta sobre o texto, e não uma afirmação explícita da própria passagem. Portanto, a fábula de que Satanás era um querubim ungido que teve inveja do Altíssimo e foi lançado na Terra não encontra respaldo naquilo que o texto realmente diz. Retiro de Ezequiel 28 das mãos do Sistema Religioso uma de suas principais supostas provas. Satanás continua sendo apresentado nas Escrituras como adversário dos propósitos de Deus, subordinado à soberania divina, mas a imagem de um anjo luminoso que se rebelou por inveja precisa ser repensada à luz de toda a Escritura, e não de fábulas construídas sobre textos fora de contexto. Finalizo dizendo que, nesta análise sobre o texto de Ezequiel, utilizei-me da análise morfológica do WTM (Weingreen Hebrew Text/Workman), da Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS) e do aparato crítico, além de base inicial na obra do professor Fábio Sabino, claro, com modificações, adições, adaptações e omissões de línguas que desconheço boa parte do vocábulo, pois só compartilho do que eu tenho conhecimento. Este texto passou por uma correção profunda em 16 de julho de 2026 (tendo sido publicado originalmente em 30 de agosto de 2021), pois com o avanço dos meus estudos encontrei diversos erros interpretativos no livro do Fábio Sabino, que hoje enxergo ser um teólogo liberal e alimentador proposital de polêmicas. Ainda assim, reconheço que ele foi o primeiro que vi apresentar algo contrário à visão tradicional sobre Ezequiel 28, o que me despertou para o tema na época. Atualmente, com mais conhecimento exegético e linguístico, corri muitas partes do texto que continham argumentos fracos ou baseados em premissas equivocadas. Espero que mais esta publicação venha a te despertar e trazer a você a luz das Escrituras sobre este texto tão utilizado pelos religiosos para dizer que é uma coisa sendo que é outra. Que a paz do Messias esteja com vocês. Nicolas Breno

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