Recentemente, a engrenagem do sistema religioso institucional voltou a cruzar o meu caminho. Um pastor começou a me seguir no Instagram e, ao acessar o seu perfil, deparei-me com um vídeo onde ele supostamente "desbancava um desigrejado" em um debate. Como alguém que defende a fé em Cristo orgânica e bíblica, fora das amarras das instituições (CNPJs), decidi analisar os argumentos apresentados. O que vi, no entanto, não foi uma refutação teológica, mas um espetáculo de falácias, anacronismos e um verdadeiro "tiro no pé" hermenêutico. Na tentativa de justificar a máquina financeira da instiuição moderna, o pastor recorreu a argumentos que distorcem tanto a Lei de Moisés quanto a Nova Aliança.
O primeiro e mais grotesco erro do pastor foi a sua tentativa de usar as 30 moedas de prata da traição de Judas para provar que "o templo lidava com dinheiro" e, por extensão, legitimar o dízimo financeiro moderno. O pastor questiona o rapaz: "𝘋𝘦 𝘰𝘯𝘥𝘦 𝘴𝘢𝘪́𝘳𝘢𝘮 𝘢𝘴 𝟥𝟢 𝘮𝘰𝘦𝘥𝘢𝘴 𝘥𝘦 𝘱𝘳𝘢𝘵𝘢? 𝘋𝘰 𝘵𝘦𝘮𝘱𝘭𝘰!". A ironia trágica dessa argumentação chega a ser assustadora. O pastor utilizou literalmente o dinheiro do suborno, da corrupção sacerdotal e do preço do sangue do Filho de Deus como base apologética para justificar a tesouraria das instituições de hoje. Mais irônico ainda é o fato de que os próprios fariseus corruptos sabiam que aquele dinheiro era sujo e se recusaram a colocá-lo de volta no cofre sagrado (Mateus 27:6). Usar o dinheiro de Caifás como modelo para as instituições é a piada pronta do institucionalismo.
Além do aspecto moral deplorável desse exemplo, há o erro histórico e bíblico. É evidente que o Templo em Jerusalém possuía dinheiro em seus cofres (o Corbã). Havia o imposto do templo (o meio siclo de Êxodo 30:13), resgates de primogênitos e ofertas voluntárias. Contudo, a presença de dinheiro no Templo não transforma o dízimo em dinheiro. A Lei de Moisés é cristalina em Levítico 27:30-32: o dízimo (𝘔𝘢'𝘢𝘴𝘦𝘳) era estritamente agrícola e pecuário. Ninguém, em toda a narrativa bíblica da Lei, dizimava em moedas. Misturar os impostos e ofertas do Templo com o dízimo é uma manobra retórica desonesta para justificar a cobrança financeira atual.
Percebendo a hesitação do seu interlocutor, o pastor recorreu a uma tática intimidadora: a "carteirada" teológica. Ele afirmou, com ares de autoridade, que "possivelmente há sete tipos de dízimo" na Bíblia. Isso é um blefe teológico puro e simples. Qualquer estudante sério até mesmo de teologia bíblica e tradição rabínica sabe que existiam apenas três dízimos obrigatórios na Lei de Moisés, e todos em forma de alimento: o dízimo dos levitas para o seu sustento (Números 18), o dízimo das festas para ser comido diante de Deus (Deuteronômio 14:22-26) e o dízimo trienal dos pobres, viúvas e órfãos (Deuteronômio 14:28-29). Inventar sete dízimos é tentar vencer o debate no grito, valendo-se da ignorância alheia.
Avançando no debate, o pastor tenta relativizar a abissal diferença entre o Templo de Jerusalém e a igreja-empresa (CNPJ) dos dias de hoje. Ele incorre no erro clássico de tentar importar o sacerdócio levítico para o Novo Testamento. O Templo de pedra foi uma instituição transitória, válida apenas para a Antiga Aliança, com tribo e linhagens específicas. Com o sacrifício de Cristo e o véu rasgado, o Templo físico perdeu sua função. Na Nova Aliança, a igreja é o ajuntamento orgânico dos salvos, que são, eles próprios, o santuário do Espírito Santo (1 Coríntios 3:16). Pegar a mecânica financeira do Templo do Antigo Testamento e "copiar e colar" para um CNPJ no século XXI, presidido por um pastor assalariado, é uma violação direta da suficiência da cruz.
Por fim, ao tentar usar as cartas de Paulo a Tito como trunfo final, o pastor tenta provar que os apóstolos criaram "instituições" ao ordenarem a nomeação de presbíteros. Novamente, falta contexto histórico. No primeiro século, os "presbíteros" (anciãos) não se assemelhavam em nada aos CEOs eclesiásticos de hoje. Eles não possuíam monopólio do púlpito, não recebiam dízimos e não presidiam empresas; eram apenas os irmãos mais maduros que guiavam o rebanho organicamente, reunindo-se nas casas (Romanos 16:5).
A tentativa de "desbancar um desigrejado" falhou miseravelmente assim que a Bíblia foi aberta com rigor. O que o vídeo nos mostra não é a superioridade do sistema religioso, mas a sua fragilidade. Quando o clericalismo precisa recorrer ao dinheiro de Judas e inventar dízimos que não existem para se sustentar, fica claro que a instituição não está defendendo o Evangelho, mas lutando desesperadamente pela sobrevivência do seu próprio modelo de negócios. A verdadeira Igreja de Cristo sempre foi e sempre será um organismo vivo, e não uma empresa sustentada por sombras da Antiga Lei.
Nicolas Breno
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