Essa pérola de desinformação foi dita pelo "humorista" (bem sem graça) Fábio Porchat durante sua participação no Podcast Flow. Ao tentar justificar um ponto de vista sobre o início da vida, ele comete erros crassos tanto do que os religiosos quanto de biologia elementar, e a gente precisa desmontar isso com fatos.
Primeiro, o básico de verificação de fatos: Porchat cita o livro de "Levíticos". A passagem a que ele se refere, sobre Deus soprar nas narinas do homem, está em Gênesis 2:7. Levíticos é um livro de leis sacerdotais. Além de errar o livro, ele comete um erro de interpretação de texto: a narrativa de Adão descreve a criação de um ser humano adulto a partir do pó (abiogênese divina), uma exceção única, e não o processo biológico de gestação que define toda a humanidade subsequente. A própria Bíblia define a vida no ventre em outras passagens, como Salmos 139:13. Adoram palpitar sobre as Escrituras mas sequer a leem.
O erro científico mais grave é achar que "respirar" significa apenas inflar os pulmões com ar atmosférico. Biologicamente, a vida depende de trocas gasosas e metabolismo, não necessariamente de ar nas narinas. Durante a gestação, o feto realiza trocas gasosas vitais através da placenta e do cordão umbilical. O oxigênio passa do sangue materno para o fetal e o dióxido de carbono faz o caminho inverso. Isso é fisiologia básica (Guyton & Hall, Tratado de Fisiologia Médica, Cap. 83: Fisiologia Fetal e Neonatal). Se não houvesse essa respiração celular, os tecidos entrariam em necrose e o feto morreria em minutos.
Dizer que "não há vida" antes do sopro (parto) ignora todos os marcadores clínicos de vida que a medicina usa. O coração do embrião começa a bombear sangue e ter atividade elétrica própria por volta da 3ª a 4ª semana de gestação (Sadler, T.W., Langman’s Medical Embryology, 14ª Edição). Atividades de ondas cerebrais são detectáveis muito antes do nascimento. O feto responde a estímulos, sente dor e se move. A definição clínica de morte é a "morte cerebral"; logo, a presença de atividade cerebral ativa é, por definição lógica e médica, prova de vida (Moore & Persaud, The Developing Human: Clinically Oriented Embryology).
Conclusão
O argumento de Porchat falha porque tenta aplicar uma metáfora poética de criação do primeiro homem (barro/sopro) para negar a biologia da gestação. Dizer que um feto de 9 meses, um minuto antes de sair da barriga, "não tem vida" porque o nariz está dentro de líquido amniótico é uma negação da ciência. Ele é um organismo metabolicamente ativo, com DNA único, sistema circulatório funcionando e atividade neurológica. Isso é vida. Qualquer um derruba a lógica dele apenas com um livro de biologia do ensino médio.
Nicolas Breno

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